Como a economia local antecipa o resultado da eleição

Emprego formal, renda e transferências explicam mais do voto do que a maioria das campanhas imagina. Um roteiro prático de como ler o território com dados públicos.

O eleitor mediano não acompanha o PIB, mas sente o mercado de trabalho do próprio município — e vota de acordo. A literatura de voto econômico é consistente nesse ponto: variações locais de emprego e renda ajudam a explicar o desempenho de incumbentes e desafiantes, e o efeito é mais forte justamente onde a campanha nacional chega com menos força.

A boa notícia para quem faz campanha no Brasil: quase tudo o que é preciso para ler esse cenário é público e auditável.

As três bases que toda campanha deveria abrir

1. CAGED / RAIS (Ministério do Trabalho). O saldo de admissões e desligamentos formais, mês a mês, por município e setor. Uma cidade que perdeu empregos industriais por 18 meses seguidos tem um humor eleitoral diferente de uma vizinha puxada pelo agronegócio — mesmo que as duas apareçam iguais na pesquisa estadual.

2. Dados abertos do TSE. Resultados por zona e seção eleitoral de todas as eleições desde 1998, além de filiação partidária e prestação de contas. É o que permite responder: onde meu partido cresceu e encolheu? Que bairros decidiram a última eleição? Para onde foram os votos de um candidato que não disputa mais?

Nós mesmos usamos essa base em pesquisa acadêmica: em Skin Color Politics: Evidence from Brazil, com Humberto Laudares e Carlos Cavalcante, analisamos os candidatos das eleições de 2016 a 2022 e mostramos, entre outros achados, que 25% dos políticos que disputam mais de uma eleição mudam a própria raça autodeclarada — um lembrete de que até o dado oficial precisa de leitura crítica, e de que método importa tanto quanto a base.

3. IBGE (Censo 2022 e PNAD Contínua). Renda domiciliar, escolaridade, faixa etária e acesso a serviços por setor censitário — a camada demográfica que explica por que o mapa do voto tem o desenho que tem.

Gráfico de dispersão relacionando a variação do emprego formal por município (saldo CAGED) com a variação no desempenho eleitoral do incumbente, mostrando uma tendência positiva
Ilustração esquemática do padrão típico da literatura de voto econômico — não é regressão de uma base específica, mas o formato de relação que essas três bases, cruzadas, revelam na prática.

O que o cruzamento revela

Cruzando as três bases, perguntas centrais de estratégia deixam de ser opinião de comitê e viram análise:

  • Onde a economia joga contra o incumbente? Municípios com deterioração do emprego formal são terreno fértil para a mensagem de mudança — e vice-versa.
  • Quais zonas concentram voto volátil? Seções com alta variação entre eleições consecutivas indicam eleitorado disponível, onde agenda e mídia local rendem mais.
  • A mensagem econômica certa para cada região. Falar de custo de vida onde a inflação de alimentos aperta; de emprego onde o CAGED sangra; de infraestrutura onde o Censo mostra carência de serviços.

Método importa mais do que volume de dados

O erro mais comum não é falta de dados — é tratá-los sem rigor: comparar pesquisas com metodologias diferentes como se fossem série histórica, ignorar margem de erro, extrapolar tendência de duas observações. Campanha decide rápido e sob pressão; análise ruim com verniz de dado é pior do que intuição honesta.

É exatamente aí que entra o trabalho de um analista com formação estatística e econômica: transformar bases públicas em leitura de território confiável, com incerteza explicitada, atualizada ao ritmo da campanha.


A KLM Consulting trabalha com análise de dados e cenários econômicos para campanhas eleitorais, de forma técnica e apartidária. Conheça o serviço em /eleicoes/ ou fale com a nossa equipe.

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