Cor de pele sem caixinhas: um novo instrumento para medir representatividade racial

Nossa pesquisa propõe um índice contínuo de cor de pele extraído de fotografias comuns, validado em fotos oficiais de candidatos do TSE — e explica por que a forma de medir importa tanto quanto o que se mede.

Boa parte da pesquisa sobre desigualdade racial no Brasil depende de uma variável aparentemente simples: a cor de pele. Mas medir cor de pele é menos simples do que parece — e o instrumento escolhido pode mudar a conclusão do estudo.

Hoje o pesquisador escolhe entre dois caminhos imperfeitos. As escalas discretas (como a Monk Skin Tone, de 10 tons) descartam toda a variação dentro de cada categoria e criam erros de classificação nas fronteiras — erros que não se cancelam e cuja direção de viés é imprevisível. Já o ITA, índice contínuo da colorimetria, foi projetado para medições com iluminação controlada, algo que não existe em arquivos fotográficos do mundo real — e, aplicado a fotos comuns, distorce justamente onde mais importa.

Em um trabalho em preparação, propomos uma alternativa: um índice contínuo de cor de pele, de 0 a 1, extraído de fotografias comuns e ancorado em referências fixas (branco puro e preto puro), o que o torna comparável entre estudos e populações.

Barra de gradiente contínuo de tons de pele, do mais claro ao mais escuro, ao longo do índice de 0 a 1
O índice como régua contínua: cada ponto do intervalo [0,1] corresponde a um tom, sem fronteiras artificiais de categoria.

Quem quiser explorar o método passo a passo, foto a foto, pode acessar a demonstração interativa da metodologia.

Como funciona

O método tem dois estágios. Primeiro, de cada foto extraímos uma única cor representativa da pele: detectamos o rosto, isolamos os pixels de pele num espaço de cor robusto a variações de iluminação (YCbCr) e estimamos a cor mais típica por densidade estatística. Segundo, projetamos essa cor num único número, usando a própria distribuição de cores da população estudada como régua — em vez de impor uma fórmula fixa de laboratório.

A validação: dados abertos do TSE

Para validar o método em escala, usamos um acervo público notável: as fotos oficiais de candidatos que o TSE publica a cada eleição. Foram cerca de 669 mil fotografias de quatro ciclos eleitorais (2018–2024). Os resultados:

  • Contra anotação humana, o índice atinge correlação de 0,97.
  • Contra medições de espectrofotômetro em uma base externa independente, a concordância chega a 0,99 — o índice extraído de fotos comuns reproduz o que um instrumento de laboratório mede.
  • Na separação das categorias da escala Monk, o índice explica 93% da variância entre categorias, contra 84% do ITA — com destaque para os tons mais claros, que o ITA praticamente não distingue.

O ganho de um índice contínuo não é cosmético. Com categorias discretas, perguntas do tipo “o efeito cresce gradualmente com o tom de pele?” são simplesmente impossíveis de responder; com uma medida contínua, a análise dose-resposta se torna viável — e as fronteiras arbitrárias entre categorias deixam de contaminar os resultados.

Ética e limites

Cor de pele é tema sensível, e o desenho do método reflete isso:

  • O índice mede populações, não pessoas. Nada nele licencia inferir raça, ancestralidade ou categoria social de um indivíduo — e esse não é seu uso pretendido. Todos os resultados são agregados sobre centenas de milhares de imagens.
  • Cor inferida é dado novo, não dado público. O TSE publica a foto e a cor/raça autodeclarada; um índice estimado por algoritmo é um dado derivado e sensível. Por isso não liberamos dados individuais — apenas o método, o código e estatísticas agregadas.
  • Os vieses do pipeline são medidos e reportados, não escondidos: há erro heteroscedástico pequeno na extração (máximo de 0,018 no índice) e a detecção facial falha mais em tons de pele escuros — limitação conhecida da literatura que documentamos em vez de ignorar.

Próximos passos

A aplicação natural — e a origem do projeto — é o estudo do comportamento eleitoral brasileiro: com um instrumento de medição validado, perguntas sobre representatividade e desigualdade racial na política podem ser tratadas com rigor quantitativo. Os primeiros resultados dessa frente já estão públicos no working paper Skin Color Politics: Evidence from Brazil (SSRN), que aplica o método aos candidatos das eleições brasileiras de 2016 a 2022.


Trabalho em preparação, em coautoria com Carlos Cavalcante (University of Illinois Urbana-Champaign) e Humberto Laudares (University of Geneva). A KLM Consulting constrói pipelines de dados e medição a partir de bases públicas — conheça os serviços ou as soluções para campanhas eleitorais.

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